terça-feira, 7 de julho de 2009

Lampião, o rei do cangaço


Lampião, o rei do cangaço
Bandido para uns, herói para outros, ele aterrorizou o sertão no início do século 20 e se tornou um dos personagens mais populares do Brasil
por Xico Sá
Vivesse hoje, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, morto no sertão de Sergipe em 1938, talvez não passasse de um bandoleiro romântico, quase ingênuo diante dos barões do tráfico e outros criminosos da metrópole. Por gracejo e ironia da história, poderíamos até dizer que ele teria medo de sair de casa em cidades como Rio e São Paulo. Depois dele, não apareceu mais ninguém na caatinga que durasse tanto tempo, mais de duas décadas, no ofício. E, embora o Brasil mais arcaico teime em mostrar a sua cara, é na área urbana que o banditismo tem hoje as suas versões mais épicas e vistosas.

Um dos personagens mais populares da história do país, Lampião sempre enfrentou e ainda enfrenta a eterna peleja: foi herói ou bandido? Nesta entrevista, misturando conhaque Macieira com uísque White Horse, duas de suas bebidas prediletas, o rei do cangaço comenta esta e outras polêmicas.

AVENTURAS NA HISTÓRIA – Herói ou bandido? Como o senhor se definiria?

Lampião – Santo é que nunca fui, mas também num tenho parentesco com o demo, como alguns cabras safados gostam de dizer. Entrei nessa vida, juro pela hóstia consagrada das minhas orações, para vingar o sangue do meu pai, assassinado por uns fazendeiros covardes. Aí, me desmantelei de vez.

Mas, o senhor sabe que há historiadores que juram ser esse fato apenas uma desculpa, dizendo que o cangaço foi na verdade a sua profissão, seu meio de vida?

Ah, se eu pego um disgramado desse, acocho o punhal bem nesse buraquinho aqui [aponta para a fossa da clavícula esquerda do repórter, a popular saboneteira]. Cravo o bicho até o sangue espirrar na cara, pra deixar de nove-horas.

Mas na entrevista que o senhor deu em Juazeiro, se referiu à função de cangaceiro como “um negócio”...

A gente diz uma coisa e esses cabras da imprensa escrevem outra. Nesse tempo nem gravador tinha. Se quer saber duma coisa de uma vez por todas, tome nota: num fui herói, nem muito menos bandido, fui o que era pra ser naqueles tempos brutos que vivi.

O senhor tem idéia de quantos matou?

Vosmicê acha que naquela matança toda eu ia lá ter tempo de contar defunto? Quem conta defunto é o diabo, eu mesmo não. Vosmicê parece que bebe.

Um trago é sempre bom para espalhar o sangue, né, como o senhor bem dizia...

Pois deixe de ser frouxo e providencie um uisquinho... [O repórter serve conhaque Macieira, 5 estrelas, o preferido do entrevistado].

O senhor não tem um cálculo assim por alto de quantos matou? Não tinha ninguém no bando que contava?

Tinha ano bom, tinha ano ruim. Os cabras dizem que em 26 eu derrubei 50. Só na família dos Gilo, magote da peste lá do Pajeú, derrubei é 13.

O senhor não fique brabo comigo que eu vou apenas repetir uma pergunta que lhe fizeram na única entrevista que deu para a imprensa, aquela em Juazeiro, em 1926... “Não se comove a extorquir dinheiro e a ‘variar’ propriedades alheias?”

Se vosmicê vem com pergunta velha, eu não vou gastar saliva com resposta nova: Oh! mas eu nunca fiz isto. Quando preciso de algum dinheiro, mando pedir amigavelmente a alguns camaradas.

Falar em Juazeiro... Por que o senhor e o bando receberam armamento do governo federal, sob as bênçãos do padre Cícero, para combater a Coluna Prestes, e nunca deram um tiro contra os componentes desse movimento comunista?

Se eu fosse desviar caminho e perder tempo com os comunistas eu tava lascado. Tinha mais o que fazer. O governo sempre me perseguiu, por que naquela hora ficou todo bonzinho? Fui lá no Juazeiro em consideração ao meu padim, padim Ciço, santo da minha estima e consideração, que me recebeu com honra de coronel...

O senhor teve muito triunfos em invasões de cidades e fazendas... Mas em Mossoró...

Lá vem vosmicê de novo perguntando o que não deve. Mas vamos simbora, desembuche...

Por que o senhor e o bando foram derrotados na invasão a Mossoró (RN), em 1927?

Num vou negar que os cabras de lá estavam bem organizados, numas trincheiras da moléstia, ali ao derredor da igreja. Num se pode ganhar tudo quando se leva adiante uma guerra do tamanho da minha, que não tinha hora nem lugar, uma guerra itinerante, corrida... E quanto mais a minha fama ia crescendo, mais os inimigos iam se preparando e ficavam com sede na minha pessoa. Também foram sabendo como eu agia. Não gosto nem de me lembrar daquele dia. Mandei o bilhete pedindo 400 contos de réis pra num invadir a cidade. Quando o prefeito se recusou a pagar, senti que a bagaceira podia ser grande. Mataram Colchete, um dos meus cabras, e fizeram uma desgraceira com Jararaca, que foi preso, humilhado e enterrado vivo uns dias depois.

O bando estava com quantos homens naquele momento?

Eu levava uns 60 cabras. Blefei que tava com uns 150, pra ver se assombrava aqueles pestes. Eles eram mais de 300 na luta e outro bocado no apoio, tavam com a febre do rato, vieram com a bubônica, era chuva caindo do céu e a chuva de bala comendo por baixo.

O episódio abalou a moral da tropa?

Num era qualquer chuvinha de bala que ia me fazer desistir da sina, não.

Não deu vontade de parar com o cangaço, uma vez que até o padre Cícero havia pedido ao senhor para deixar o ramo?

Eu disse ao meu padim que depois de uns anos eu deixaria, mas não naquela hora. Também eu não podia sair desmoralizado, com o rabo entre as pernas, depois da peleja em Mossoró.

Muita gente, inclusive do seu bando, temia que a entrada das mulheres no cangaço, começo dos anos 1930, fosse enfraquecer e debilitar o grupo. O que o senhor acha desse machismo?

Só um efeminado para pensar uma besteira desse tamanho. As mulheres deram vida nova para todos nós. Eram mais valentes que muitos cabras machos. Maria Déa [como chamava Maria Bonita] era uma guerreira que valia por mil cabras. Ainda mais foi o amor da minha vida. Um cafuné dela numa hora de aperreio valia ouro 18, valia diamante, descansava meu juízo e me botava novo pra luta. Nunca houve mulher como essa morena. Com ela tive Expedita, minha filha, mãe de Vera Ferreira, que hoje zela pela minha memória.

O senhor reinou por mais de duas décadas no Nordeste. Chegou a sentir, antes da tragédia de Angicos, que o ciclo estava chegando ao fim?

Uma trepeça que eu odiava era o tal do automóvel. Quando começaram a abrir estrada pra tudo quanto é canto, eu pensei, lascou-se, esse negócio vai aumentar a velocidade dos macacos da polícia. Moderno pra mim era somente o batismo de um dos meus cangaceiros, nada mais. Aí vem essa modernagem toda pra enfrentar minhas pernas de carne e osso. Fiquei acabrunhado.

O senhor acredita que Pedro Cândido, coiteiro lá de Angicos, foi mesmo quem lhe traiu?

Já matutei muito sobre o acontecido e prefiro acreditar, Deus me castigue se eu estiver errado, que o tenente Zé Bezerra [comandante da operação, da Polícia de Alagoas] judiou tanto dele, que o coitado acabou mostrando o caminho pros macacos. No meu mundo isso pode ser considerado uma fraqueza, mas não acredito em traição.

O senhor achou que ia morrer quando foi acordado, naquele 28 de julho de 1938?

Quando me apeguei do rifle já era tarde demais... Num deu tempo nem de achar, nem de me benzer. Quando chega a nossa hora, escrita nos cadernos de Nosso Senhor...

É verdade que o senhor morreu com muito ouro e dinheiro nos embornais?

Essa pergunta deve ser feita aos macacos, que rapinaram até o último cobre.

Revista Aventuras na Historia

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